Era um domingo qualquer, aquele domingo típico, ensolarado,cheio de vida, um domingo de verão que toda criança ama. Íamos almoçar na chácara dos amigos dos meus pais, um lugar maravilhoso, cheio de árvores, brinquedos, e uma bela piscina que eu amava.
Estava passando por uma semana conturbada na escola, meus colegas eram maldosos, mesmo sendo crianças de 8 anos elas conseguiam ser tão ácidas como um adulto, e é claro que meu comportamento não ajudava, escutava coisas que os outros não escutavam, via sombras se moverem sem ter pessoas para projetá-las, falava pras outras crianças as coisas bizarras que me acontecia, mas sempre era acusado de mentiroso. Naquela idade eu só queria alguém pra conversar, pra acreditar em mim, sem sofrer julgamentos, porém nunca encontrava alguém e estava cada vez ficando mais sozinho, e na semana anterior ao domingo, eu senti os males da solidão, senti a amargura de não me encaixar em nenhum lugar.
O domingo na casa da Cidinha veio pra salvar aquela semana, aquele lugar realmente me deixava feliz, principalmente aquela piscina, toda criança ama nadar, e eu era um "peixinho". Passei a tarde inteira nadando, e depois sai colher frutinhas nas árvores da chácara, queria ter algo pra comer enquanto assistia desenhos. Estava no pé de uma árvore esperando enquanto meu pai apanhava mangas, e senti algo mudando, não era o tempo, era o espaço a minha volta, as árvores começaram a gritar, os pássaros se agitaram, os insetos se esconderam, e a sensação de solidão tomou meu coração. Parecia que meu pai tinha desaparecido, aliás, parecia que todos tinham sumido.
De repente senti uma coisa esguia passando pelas minhas pernas, e meu sangue gelou quando vi que era uma serpente. Ela não se assemelhava com as cobras da TV, ela era comprida e escura como a noite, seus olhos eram amarelos. Ela passou pelas minhas pernas, e após criar um espaço entre mim, ela passou a me encarar, fazendo aquele chiado característico, que me vez arrepiar de medo, até ela começar falar: - Lindo garotinho, não tenha medo, vim para te proteger. Você não está sozinho, você tem a mim, você tem as sombras, escute-as, sinta-as, e elas te protegerão, assim como eu. Estarei te guiando pelos sonhos, e as sombras enquanto tiver acordado.
Acenei a ela, confirmando que eu havia entendido, e depois a serpente continuou seu caminho, e desapareceu quando cruzou uma árvore grossa. Eu não tinha voz, era surreal aquilo, e num piscar de olhos tudo voltou ao normal, meu pai desceu da árvore falando que eu estava muito quieto, perguntou o motivo da minha cara de assustado. Quando chegamos até a edicula da chácara, contei que tinha visto uma cobra e que ela tinha conversado comigo, todos caíram na gargalhada dizendo o quanto a minha imaginação era fértil. Fiquei bravo, muito bravo, afinal não entendia o porquê ninguém acreditava em mim, mas isso logo passou quando comi um belo bolo de chocolate.
Desde esse dia a serpente me acompanhou todas as noites em meus sonhos, me ajudando a lidar com meus pesadelos, e só parou de aparecer quando os pesadelos foram substituídos por sonhos bons.
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